Imagina esse cenário. Uma nova solicitação de feature chega, e você percebe que ela vai precisar mexer em um módulo antigo de permissões. A reunião de planejamento do projeto fica subitamente silenciosa, porque todo mundo sabe que qualquer mudança naquela parte do código legado significa semanas de testes, comportamento imprevisível e um deploy de alto risco.

Esse é o ponto em que a construção de coisas novas começa a andar a passos lentos, limitada por decisões tomadas anos atrás por pessoas que já nem fazem mais parte do time.
Além do dilema de “Reescrever ou Refatorar”
Nesses momentos, quase sempre alguém sugere uma reescrita completa. É uma ideia sedutora, uma folha em branco onde todos os erros do passado são apagados. A realidade é que uma reescrita completa raramente é uma solução prática. Ela congela a entrega de novo valor para o negócio por meses ou até anos, introduz uma quantidade enorme de risco e descarta anos de lógica testada que, com todos os seus defeitos, é o que mantém o negócio funcionando hoje. O código pode ser difícil de ler, mas ele carrega um conhecimento valioso e implícito sobre edge cases que você talvez nem tenha considerado ainda.
A alternativa, a refatoração incremental, funciona muito melhor quando é encarada como um processo contínuo, e não como um projeto isolado. O objetivo é evoluir o sistema aos poucos, não chegar a um estado “perfeito” idealizado. O código mais valioso costuma ser o mais antigo, e aprender a trabalhar com ele é uma habilidade central da engenharia.
Quando o código legado vira um gargalo real
O termo “dívida técnica” pode soar abstrato, mas gargalos aparecem de forma bem clara no dia a dia do time. É o módulo que desacelera toda nova feature. É a origem de incidentes recorrentes de performance ou o componente com uma vulnerabilidade de segurança conhecida que está tão acoplado que é difícil corrigir. Você sabe que encontrou um gargalo quando vários times precisam se coordenar até para mudanças pequenas, ou quando o esforço operacional para manter um serviço no ar supera o valor que ele entrega.
Essas são as áreas que ativamente travam o progresso. Identificá-las é o primeiro passo, porque você não consegue consertar tudo de uma vez, e tentar fazer isso só vai travar o time.
Uma abordagem para evoluir sistemas
A abordagem mais eficaz é parar de pensar em “consertar tudo” e passar a focar em “evoluir o sistema de forma estratégica”. Seu trabalho é criar caminhos para o desenvolvimento novo enquanto contém o legado com segurança. Padrões arquiteturais como o Strangler Fig partem exatamente dessa ideia: você intercepta gradualmente o tráfego de um sistema antigo, redireciona para novos serviços e, com o tempo, o sistema antigo é “estrangulado” até deixar de existir, sem um corte brusco e arriscado.
Isso exige priorizar mudanças com base em uma combinação de impacto no negócio e risco técnico. Uma parte do codebase pode estar bagunçada, mas se ela é estável e muda pouco, provavelmente não é ali que você deve investir seu tempo. Foque nas partes do sistema que são ao mesmo tempo críticas e constantemente pressionadas por mudanças.
Técnicas para gerenciar os limites
Para evoluir um sistema com segurança, você precisa gerenciar bem os limites entre as partes antigas e novas do seu codebase. Aqui estão algumas técnicas práticas que funcionam bem:
- Identificar junções e interfaces: Primeiro, você precisa encontrar as articulações naturais do sistema. São os pontos onde é possível interceptar chamadas entre componentes sem reescrever nenhum deles. Uma junção pode ser uma chamada de API, a invocação de um método ou uma mensagem enviada para uma fila. Quando você encontra esses pontos, pode começar a redirecionar o comportamento.
- Isolar funcionalidades: Quando existe uma área particularmente problemática, o objetivo é contê-la. Você pode criar um adapter ou uma camada de anticorrupção que fica entre o código antigo e o restante da aplicação. Essa nova camada traduz requisições e respostas, escondendo a complexidade do componente legado e oferecendo uma interface limpa e moderna para o código novo interagir.
- Escrever testes de caracterização: Você não consegue mudar um código com segurança se não sabe o que ele faz. Antes de mexer em qualquer coisa, escreva uma suíte de testes que documente o comportamento atual, incluindo seus bugs. Esses “testes de caracterização” não julgam o código; eles apenas capturam o estado existente. Quando você faz uma mudança, pode rodar esses testes para garantir que não quebrou alguma suposição implícita em outra parte do sistema.
- Implementar observabilidade: Você precisa enxergar o que os componentes antigos estão fazendo em produção. Adicionar logs detalhados, métricas e tracing distribuído traz a visibilidade necessária para entender o comportamento em runtime. Sem isso, toda vez que você faz deploy de uma mudança em uma parte do código antigo, você vai estar operando no escuro.
O framework de evolução incremental: Decidir, Delimitar, Desenvolver
1. Decidir: onde está a dor real?
Seus recursos são finitos, então priorização é tudo. O ponto de partida é a interseção entre valor para o negócio e frequência de mudança. Qual parte do sistema mais frequentemente bloqueia projetos importantes? Avalie o impacto de modernizar um componente em relação ao esforço necessário. Muitas vezes, os alvos de maior alavancagem são áreas com alto acoplamento ou baixa testabilidade, porque melhorá-las libera velocidade para vários times.
2. Delimitar: como podemos conter a mudança?
Depois de decidir onde focar, o próximo passo é desenhar um limite em torno da área problemática. É aqui que entram as decisões arquiteturais. Você pode criar um novo microserviço para abrigar a lógica nova, usando um API gateway ou uma fila de mensagens para fazer a ponte entre os sistemas antigo e novo. O ponto-chave é criar uma interface clara que abstraia a implementação legada. O resto da aplicação não deveria precisar saber se está falando com um monólito de 10 anos ou com um serviço recém-criado.
3. Desenvolver: executar com iterações pequenas e bem testadas
Com um limite claro definido, você pode começar a desenvolver. Novas features que interagem com código legado devem ser construídas usando um desenvolvimento orientado a testes, garantindo que tanto a lógica nova quanto as integrações estejam corretas. Mudanças pequenas e incrementais, entregues por meio de um pipeline automatizado, dão a confiança necessária para avançar rápido. Cada pull request deve ser um passo pequeno e verificável. Code reviews para esse tipo de trabalho devem ter um foco especial na clareza e na durabilidade das novas interfaces que você está criando.
Cultivando uma relação sustentável com o seu codebase
Trabalhar com sistemas legados não é um projeto pontual com começo, meio e fim. É um processo contínuo de melhoria. Os times mais eficazes constroem uma cultura que valoriza esse trabalho incremental, e não apenas correções reativas quando algo quebra. Isso significa investir em ferramentas e práticas de desenvolvimento que apoiem mudanças seguras e pequenas, e tornem a refatoração uma atividade de baixo custo e pouca burocracia.
No fim das contas, “moderno” é um alvo em movimento. O serviço novinho que você constrói hoje será o código legado de alguém daqui a cinco anos. A habilidade real está em aprender a gerenciar a complexidade como uma prática contínua, garantindo que o codebase que você tem permita continuar construindo, testando e entregando valor.