Enviar uma grande mudança para um sistema em produção com uma base grande de usuários cria um tipo de estresse bem conhecido. O negócio quer ir rápido, mas os engenheiros sabem que deploys em “big bang” carregam uma quantidade desproporcional de risco. Um único deploy ruim pode significar um grande incidente, um rollback complexo sob pressão e uma longa noite para o time. É aqui que as Feature Flags deixam de ser apenas uma ferramenta para testes A/B e passam a ser uma parte fundamental de um processo de release saudável.
Em muitos times, o modelo tradicional de release ainda é fazer um deploy e expor tudo para 100% dos usuários de uma vez. Esse modelo funciona enquanto o sistema é simples, mas começa a dar problemas à medida que a complexidade cresce. Quando algo quebra, fica difícil entender a causa, porque várias mudanças chegaram juntas à produção. Reverter exige um novo deploy completo, que leva tempo, gera instabilidade e aumenta o risco de novos erros. Com isso, cada release passa a ser encarado como um momento tenso, e os times acabam segurando mudanças por mais tempo do que gostariam, tentando compensar com mais testes, mesmo sabendo que produção sempre se comporta de um jeito diferente de qualquer ambiente de staging.
De tentar evitar bugs a controlar o impacto
Uma forma mais prática de pensar em releases é parar de tentar impedir que qualquer bug chegue à produção e passar a controlar o impacto quando algo inevitavelmente dá errado. Em vez de tratar deploy e release como a mesma coisa, você pode separar os dois. O código pode estar em produção, mas a funcionalidade só fica ativa quando você decide liberá-la.
Essa separação dá um nível de controle que não existe em deploys tradicionais. Expor usuários a uma nova funcionalidade deixa de ser um evento técnico e passa a ser uma decisão operacional. Você pode ativar ou desativar recursos para grupos específicos de usuários em segundos, sem precisar rodar um novo pipeline de deploy.
Feature flags como principal mecanismo de controle
É aqui que as feature flags deixam de ser um “nice-to-have” para gerentes de produto e se tornam uma peça crítica da infraestrutura operacional. Elas são o mecanismo que viabiliza esse controle granular. Uma flag bem posicionada no código funciona como um controle remoto para sua funcionalidade, permitindo gerenciar sua disponibilidade para diferentes coortes de usuários diretamente a partir de um dashboard.
Você pode começar liberando uma funcionalidade para uso interno, depois para uma pequena parcela dos usuários, e só então ampliar gradualmente, enquanto acompanha métricas e sinais de degradação. Se algo sair do esperado, basta desligar a flag e limitar o impacto, sem precisar fazer rollback nem gerar um incidente maior.
Rollouts graduais para reduzir risco em produção
Com feature flags como base, dá para aplicar diferentes estratégias de rollout conforme o nível de risco da mudança. Elas não são abordagens concorrentes, mas opções complementares para controlar como funcionalidades chegam à produção de forma segura.
Rollouts em Fases
- Dark Launches: Você pode fazer o deploy do código em produção com a feature flag desligada para todos os usuários reais. Isso permite testar os novos caminhos de código com tráfego interno ou testes sintéticos, validando performance e capturando problemas de integração antes que um único cliente veja a funcionalidade.
- Canary Releases: Este é o rollout gradual clássico. Você habilita a funcionalidade para uma porcentagem muito pequena da sua base de usuários, como 1% ou 5%. Isso minimiza o raio de impacto. Se as taxas de erro permanecerem estáveis e as métricas de performance parecerem boas, você pode aumentar lentamente a porcentagem até chegar a 100%.
- Ring Deployments: Uma versão mais estruturada de um canary release, em que você define grupos ou “anéis” específicos de usuários. Um padrão comum é liberar primeiro para funcionários internos (Ring 0), depois para usuários de acesso antecipado (Ring 1) e, em seguida, gradualmente para a base geral de usuários (Ring 2, Ring 3, etc.). Isso fornece feedback de diferentes perfis de usuários em cada etapa.
- Experimentos Controlados: Além de simplesmente ligar ou desligar, as flags permitem segmentar usuários com base em atributos como plano de assinatura, região geográfica ou data de cadastro. Isso é útil para validar se uma nova funcionalidade funciona para um segmento específico de clientes antes de uma liberação mais ampla.
Como usar feature flags
- Design claro das flags: Feature flags são código em produção e precisam ser tratadas como tal. Cada flag deve ter um propósito claro, um responsável definido e uma vida útil explícita. Nomes precisam comunicar intenção, não experimentação temporária, e toda flag deve estar vinculada a uma decisão de produto ou arquitetura documentada. Isso evita acúmulo de flags obsoletas, confusão operacional e risco crescente no código
- Monitoramento e alertas: Qualquer caminho de código controlado por uma feature flag precisa ter seu próprio monitoramento específico. Você deve conseguir ver taxas de erro, latência e métricas-chave de negócio segmentadas de acordo com se o usuário tem a flag habilitada ou não. Um alerta deve disparar se as métricas do grupo “on” divergirem negativamente das do grupo “off”.
- O papel do “kill switch”: Toda feature flag é, fundamentalmente, um kill switch. O time precisa saber que, se um incidente ocorrer, sua primeira ação pode ser desabilitar a flag relevante. Esse costuma ser o jeito mais rápido de mitigar um problema, ganhando tempo para investigar a causa raiz sem impacto contínuo para os clientes.
- Integração com CI/CD: O estado das feature flags deve ser considerado parte do estado da sua aplicação. Gerenciá-las deve parecer parte do seu fluxo de trabalho, seja por meio de uma UI, uma API ou um processo no estilo GitOps, em que as configurações das flags são armazenadas em um repositório.
Boas Práticas para Gerenciar o Ciclo de Vida das Flags
Flags temporárias que ficam para sempre no código são uma enorme fonte de dívida técnica. Uma feature flag é uma construção temporária, e você precisa de um processo para removê-la. Quando uma funcionalidade está totalmente liberada e estável, a flag deve ser aposentada. Isso envolve remover a lógica condicional do código e excluir a flag do seu sistema de gerenciamento. Esse processo de limpeza deve fazer parte do ticket original. Alguns times até definem datas de expiração para as flags, que criam automaticamente tickets ou alertas para o responsável quando chega a hora de limpá-las.
Como Criar uma Cultura de Experimentação Segura
Quando os times conseguem liberar mudanças com segurança e de forma independente, isso muda fundamentalmente a maneira como operam. O medo de quebrar a produção diminui, substituído pela confiança para testar ideias e obter feedback do mundo real rapidamente. Rollouts graduais dão aos times de engenharia uma rede de segurança, permitindo que assumam riscos calculados e aprendam diretamente com o tráfego de produção. Isso acelera o ciclo de feedback entre construir algo e entender seu impacto, o que, no fim das contas, é o que nos permite construir sistemas melhores.