O primeiro sinal de problema geralmente é a fila de builds. Alguns desenvolvedores entram no time, a frequência de commits aumenta e, de repente, o pipeline de CI/CD que parecia rápido agora vira uma espera de 45 minutos por feedback em uma mudança pequena. Desenvolvedores começam a trocar de contexto enquanto aguardam os testes passarem ou, pior ainda, começam a juntar pull requests maiores para evitar o “imposto” do pipeline, o que só leva a reviews mais complexos e problemas de integração. Quando você percebe, conflitos de merge viram um problema diário e fazer deploy passa a parecer um evento de alto risco.
Essa lentidão não é só um incômodo. Ela afeta diretamente a produtividade e o moral dos desenvolvedores. O onboarding de novos engenheiros fica difícil quando eles precisam lidar com scripts de CI complexos, sem documentação clara e que ninguém entende por completo. Os custos de infraestrutura também começam a subir à medida que você joga mais runners no problema, mas a utilização continua baixa porque os jobs não são otimizados. No fim, você acaba pagando por máquinas ociosas enquanto os desenvolvedores ficam esperando em uma fila.
Mudando o Foco: CI/CD como um Produto Interno para Desenvolvedores
A reação mais comum é buscar por soluções pontuais: pegar uma máquina de build mais rápida ou otimizar aquele teste que está lento. Isso ajuda, mas perde o quadro maior. O problema não é só velocidade, é como todo o processo afeta a experiência do desenvolvedor no dia a dia. Um pipeline pode ser rápido e ainda assim confuso, frágil e uma fonte constante de carga cognitiva para engenheiros que só querem entregar código.
Uma abordagem melhor é começar a tratar sua configuração de CI/CD como um produto interno, com seus desenvolvedores como clientes. O objetivo deixa de ser apenas deixar os builds mais rápidos e passa a ser criar um sistema que seja mais confiável, intuitivo e que empodere o time. Isso significa dar às equipes autonomia para gerenciar seus próprios fluxos de trabalho dentro de um conjunto de guardrails bem definidos, reduzindo o esforço mental necessário para levar código de uma branch até produção.
Projetando CI/CD para crescer com o time
Tratar o pipeline como um produto exige uma abordagem mais deliberada da sua arquitetura. É sobre construir um sistema que consiga lidar com mais desenvolvedores e mais commits sem cair ou virar um gargalo.
Modularizando seus Pipelines de CI/CD
Muitos pipelines começam como um único script monolítico que cuida de tudo, do lint ao deploy. À medida que o time cresce, esse arquivo se torna impossível de manter. A correção é decompor esses jobs monolíticos em componentes menores, independentes e reutilizáveis. Pense neles como funções na sua base de código.
Padronizar esses componentes em templates permite que os times montem seus próprios pipelines sem reinventar a roda. Isso também viabiliza estratégias de execução mais inteligentes. Em vez de rodar toda a suíte de testes para uma mudança na documentação, você pode implementar uma execução seletiva que roda apenas os jobs relevantes para os arquivos alterados. Isso exige quebrar as etapas de teste (por exemplo, unitário, integração, end-to-end) e executá-las em paralelo sempre que possível, reduzindo drasticamente o tempo de feedback.
Responsabilidades claras e modelos de self-service
Quando um pipeline quebra, quem corrige? Se a resposta é “quem fez o último push” ou “algum engenheiro sênior que conhece os scripts”, você tem um problema de ownership. À medida que você escala, esse modelo informal simplesmente deixa de funcionar.
Um modelo sustentável envolve duas partes-chave:
- Um time central de plataforma: Esse pequeno time é dono da infraestrutura central de CI/CD, gerencia os runners e mantém os componentes padronizados e reutilizáveis. Eles são facilitadores, não gatekeepers.
- Um modelo de self-service: Times de produto são capacitados a configurar e gerenciar seus próprios pipelines usando os componentes fornecidos pelo time de plataforma. Eles são donos do processo de build e deploy do seu serviço, o que lhes dá mais autonomia para avançar no próprio ritmo.
Essa estrutura evita que o time de plataforma vire um gargalo, ao mesmo tempo em que garante que práticas e infraestrutura centrais permaneçam consistentes e confiáveis em toda a organização.
Implementando Observabilidade e Loops de Feedback
Você não consegue melhorar o que não mede. Tratar o CI/CD como um produto exige ter visibilidade sobre como ele está funcionando e como é usado no dia a dia. O ponto é ir além da duração do build e acompanhar métricas que reflitam a experiência real do desenvolvedor.
As métricas DORA são um bom começo, porque ajudam a criar uma base comum de análise:
- Lead Time for Changes: Quanto tempo leva para um commit chegar em produção? Essa é a medida definitiva da eficiência do pipeline.
- Change Failure Rate: Com que frequência seus deploys causam uma falha em produção? Isso ajuda a equilibrar velocidade e estabilidade.
Além das métricas, você precisa de feedback direto. Crie um canal dedicado no Slack para problemas e sugestões sobre CI/CD. Converse regularmente com os desenvolvedores sobre o que está atrapalhando o dia a dia. Muitas vezes, a maior melhoria não vem de uma otimização técnica, mas de um ajuste simples no fluxo que elimina algo que está confuso.
Como melhorar o processo
Seu sistema de CI/CD nunca está “pronto”. Como qualquer software crítico, ele precisa de manutenção constante e ajustes ao longo do tempo. Reserve momentos regulares para revisar e refatorar os pipelines, lidando com o acúmulo inevitável de complexidade. Identifique os caminhos mais críticos do processo de build e teste e invista neles, seja melhorando o cache de dependências ou ajustando o ambiente de build.
Ao considerar novas ferramentas ou tecnologias, seja criterioso. Avalie se elas resolvem um problema real e já sentido pelos desenvolvedores, em vez de adotá-las só porque estão na moda. Avançar passo a passo, validando cada mudança, ajuda o CI/CD a evoluir junto com o time, sem virar mais um obstáculo no fluxo.