Todo time passa por uma sessão de planejamento que termina com um roadmap com o qual todo mundo se sente bem, apenas para chegar ao fim do trimestre tendo entregue cerca de metade do que foi prometido. Todo mundo esteve ocupado, pull requests foram mergeados e incêndios foram apagados, mas o resultado não bate com o esforço. Essa diferença não tem a ver com falta de habilidade ou motivação; ela é o resultado de um entendimento fundamentalmente errado sobre a real capacidade de engenharia de um time, que quase sempre é menor do que imaginamos.
O que é planejamento de capacidade de engenharia?
Antes de tudo, vamos alinhar definições. Planejamento de capacidade de engenharia é o processo de entender, prever e gerenciar quanto trabalho seu time de engenharia consegue entregar dentro de um determinado período, levando em conta recursos, demandas futuras e objetivos estratégicos da empresa.
Com ele, você evita sobrecarregar ou subutilizar seus engenheiros, mantendo-os sempre no ponto ideal de produtividade e satisfação.
A Lacuna Entre a Capacidade Percebida e o Throughput Real
O planejamento tradicional costuma partir de uma premissa fraca: tratar capacidade como um número fixo de horas que pode ser distribuído em uma lista de funcionalidades. Na prática, isso não se sustenta. Estimativas feitas em reuniões de planejamento raramente consideram o volume de trabalho não planejado que aparece em qualquer semana normal. Um incidente em produção, um patch de segurança urgente ou um bug crítico descoberto por um cliente importante podem descarrilar o equivalente a um sprint inteiro de trabalho em features. O resultado é um time que se sente sempre atrasado, porque o compromisso assumido nunca refletiu o trabalho real que precisava ser feito.
O problema não está só em grandes emergências. Boa parte da capacidade do time é consumida por trabalho diário, pouco visível, mas essencial para manter o sistema de pé, como:
Suporte operacional: tempo gasto investigando testes instáveis, respondendo a alertas e participando de plantões.
Manutenção e Dívida: Atualizar dependências, refatorar código e corrigir vulnerabilidades de infraestrutura.
Sobrecarga de colaboração: tempo gasto com reviews, onboarding, documentação e suporte no dia a dia do time.
Troca de contexto: o custo cognitivo de alternar entre tarefas, como pausar uma feature para revisar um PR, entrar em uma reunião e depois tentar retomar o fluxo.
Nada disso aparece em um roadmap de produto, mas consome uma parcela significativa do tempo e da energia mental do time. Quando planejamos como se esse trabalho não existisse, estamos nos preparando para falhar.
O problema de tentar usar 100% do tempo do time
A busca por utilizar 100% do tempo do time é uma dos problemas mais comuns na gestão de engenharia. Ela parte da ideia de que engenheiros deveriam estar sempre alocados em alguma tarefa, como se fossem peças intercambiáveis. Isso ignora a realidade da resolução de problemas complexos, que exige foco profundo e tempo sem interrupções. Um desenvolvedor que é constantemente interrompido ou dividido entre três projetos diferentes não está sendo “totalmente utilizado”; ele está sendo impedido de fazer progresso significativo em qualquer um deles.
Uma forma melhor de pensar nisso é enxergar a entrega do time como um ecossistema, não como uma linha de montagem. Diferentes tipos de trabalho estão interconectados. Por exemplo, investir tempo em melhorar ferramentas de desenvolvimento neste trimestre (Team Enablement) aumenta diretamente a capacidade de entrega de features do time no próximo trimestre. Refatorar um módulo complexo (Investimento Técnico) reduz o número de bugs e pedidos de suporte no futuro. Esse trabalho não é uma distração do roadmap, é um investimento em velocidade e estabilidade futuras.
Tentar extrair mais entrega de features cortando essa manutenção que é essencial, é como tentar dirigir mais rápido pulando as trocas de óleo. Pode até funcionar por um tempo, mas o custo da quebra que vem depois quase sempre é muito maior do que o tempo economizado com a manutenção.
Entendendo a capacidade real do time de engenharia
Em vez de depender apenas de estimativas, uma jeito mais confiável é tornar a capacidade visível usando dados do trabalho que passa pelo time. Para isso, é importante separar os diferentes níveis de planejamento e usar a ferramenta certa em cada um deles.
- Planejamento Estratégico (Longo prazo: 12+ meses): Trata-se de definir objetivos de negócio de alto nível e a direção técnica. Aqui, você não está se comprometendo com features ou prazos específicos. O objetivo é alinhar sobre quais problemas valem a pena ser resolvidos.
- Planejamento Tático (Médio prazo: 1–3 meses): É aqui que você traduz os objetivos estratégicos em um conjunto concreto de iniciativas ou épicos para o próximo trimestre. Também é aqui que você deve ter conversas sobre alocação de capacidade.
- Planejamento Operacional (Curto prazo: 1–4 semanas): É o trabalho em nível de sprint de quebrar épicos em tarefas e histórias específicas. Este é o único nível em que estimativas mais granulares podem ser úteis, mas ainda assim devem ser informadas por dados históricos, não por pensamento desejoso.
Um erro comum é misturar esses níveis. Fazer uma promessa específica de entrega de feature (um compromisso operacional) durante uma reunião de planejamento trimestral (um exercício tático) tem muita probabilidade de você não atingir o prazo, porque você está assumindo um compromisso sem entender completamente o trabalho ou a verdadeira capacidade do sistema.
Um modelo simples para alocação de capacidade
Para sair da teoria e ir para a prática, você pode implementar um modelo de capacidade com buffer. Ele começa reconhecendo que nem todo trabalho é trabalho de feature. O primeiro passo é definir categorias claras para os esforços do time.
- Product Roadmap: Novas features planejadas e melhorias voltadas ao usuário.
- Excelência Operacional: Plantão, correção de bugs, resposta a incidentes e monitoramento de performance.
- Investimento Técnico: Pagamento de dívida técnica, melhorias arquiteturais, patches de segurança e migrações de plataforma.
- Team Enablement: Melhoria de ferramentas de desenvolvimento, atualização de documentação, treinamentos e sessões de compartilhamento de conhecimento.
- Buffer Não Alocado: Um bloco de tempo reservado para o que realmente é desconhecido.
Com as categorias claras, dá para definir percentuais de referência usando dados históricos e a realidade do time. Um bom começo seria:
- Product Roadmap: 50–60%
- Excelência Operacional: 15–20%
- Investimento Técnico: 15–20%
- Buffer Não Alocado: 10%
Esses números não são fixos. Um time que gerencia um sistema legado pode precisar de uma porcentagem maior para trabalho operacional, enquanto um time construindo um novo produto pode alocar mais para o roadmap. O ponto principal é tornar a alocação explícita e acompanhá-la. Esses percentuais não são para serem usados como uma meta a ser atingida, é pra ser como um guia para tomar decisões de prioridade semana a semana.
Engineering Capacity Calculator
Discover the true bandwidth available for your roadmap.
True Roadmap Capacity
Proteja o Buffer e Comunique Para Cima
O buffer não alocado costuma ser a primeira coisa a ser comprimida quando a pressão aumenta, mas é a parte mais importante para criar um ritmo sustentável. Você precisa protegê-lo com firmeza. É ele que permite ao time lidar com um problema inesperado em produção sem descarrilar todos os outros compromissos. É a capacidade que permite aprendizado, experimentação e melhorias.
Esse modelo também ajuda muito na comunicação com stakeholders. Ele permite sair de respostas vagas e levar a conversa para dados concretos sobre a capacidade do time. Em vez de a discussão parar em “não dá”, você consegue mostrar como a capacidade está distribuída hoje, por exemplo, 60% dedicada ao roadmap de produto, o que historicamente resulta em X story points ou Y features por trimestre. A partir daí, a conversa muda: se um novo projeto entrar, de onde essa capacidade vai sair? Vamos reduzir investimento técnico ou ajustar outro item do roadmap?
Isso muda a conversa de um debate subjetivo sobre esforço para uma discussão objetiva sobre trade-offs. Fica mais fácil para stakeholders entenderem o custo das solicitações e o impacto que cada nova demanda tem no restante do trabalho. Com isso, você pode criar um sistema que não apenas é mais previsível, mas também mais resiliente e sustentável no longo prazo.
Erros Comuns ao Planejar a Capacidade de Engenharia
Subestimar tarefas: Eu sei que é tentador ser otimista demais, mas precisamos ser realistas. É muito fácil assumir que sua equipe fará tudo rápido e perfeitamente. A verdade? Os imprevistos sempre acontecem. Então, seja realista na hora de estimar as entregas.
Ignorar feedback da equipe: Sua equipe está diariamente nas trincheiras e sabe exatamente onde estão os gargalos. Deixar de ouvi-los é um erro fatal. Mantenha sempre canais abertos e ouça com atenção o que seu time tem a dizer sobre o planejamento.
Não atualizar constantemente: Planejamento de capacidade não é uma atividade única, mas é pra ser um processo contínuo. Não caia no erro clássico de achar que, uma vez feito, está resolvido para sempre. Revise regularmente e faça ajustes constantes.
Conclusão
Olha só, eu sei que planejamento de capacidade de engenharia pode parecer complicado no início, mas acredite: investir nisso vale muito a pena. Quando você domina esses passos que compartilhei aqui, não só ganha clareza sobre o que sua equipe realmente consegue entregar, como também deixa seu time mais feliz, produtivo e motivado. E, no fim das contas, quem não quer entregas consistentes, uma equipe saudável e stakeholders satisfeitos, certo? Agora é só começar!