O caminho de carreira padrão para um engenheiro geralmente leva ao cargo de tech lead, mas essa promoção pode criar problemas que passam despercebidos. As habilidades que te tornaram um ótimo programador, como foco e entrega de funcionalidades de forma independente, não se traduzem diretamente em liderar um time. De repente, seu desempenho passa a ser medido pelo resultado do time, não apenas pelas suas próprias contribuições. Isso significa que seu novo trabalho é gerenciar resultados, o que envolve lidar com pessoas, prioridades conflitantes e muita ambiguidade. Aprender a definir prioridades é muito importante para essa transição para a liderança.
Quando essas habilidades centradas em pessoas são negligenciadas, os custos aparecem de forma concreta. Projetos atrasam por causa de mal-entendidos simples que se arrastam por semanas.
Você pode ver dois engenheiros discutindo em círculos durante um review de pull request, quando o problema real é a falta de ownership claro ou uma tensão não resolvida de um projeto anterior. Como tech lead, aprender a escalar o code review se torna essencial para mitigar esse tipo de situação e melhorar a eficiência do time. Com o tempo, esse atrito desgasta as pessoas. A moral do time cai, bons desenvolvedores começam a procurar outras oportunidades, e você acaba gastando mais tempo lidando com rotatividade do que construindo software.
Soft Skills Não São Opcionais para um Tech Lead
Costumamos tratar habilidades interpessoais como algo secundário, mas em um papel de liderança, elas são fundamentais para a execução técnica. Uma falha de comunicação não é apenas desconfortável, ela impacta diretamente a base de código e o cronograma de entregas.
Por Que Comunicação é uma Decisão Arquitetural
Pense na última vez em que uma funcionalidade grande precisou ser refeita. A causa raiz provavelmente foi uma falha de comunicação. Especificações pouco claras ou uma reunião de kickoff feita na correria fazem com que os engenheiros construam em cima de suposições. Quando essas suposições se mostram erradas, o resultado é um pull request que trava em questões fundamentais que deveriam ter sido resolvidas semanas antes. O refactor que vem depois não é apenas uma tarefa técnica, ele é a manifestação concreta de um time que não estava alinhado. Entender como aplicar princípios para melhorar a manutenibilidade do código geralmente começa com comunicação e alinhamento melhores.
Na prática, uma comunicação clara funciona como um pré-requisito arquitetural.
Ela estabelece o contexto compartilhado e o entendimento sobre o qual todo o sistema é construído. Quando as prioridades ficam desalinhadas porque uma pessoa ouviu uma coisa em uma reunião e outra leu algo diferente em um documento, o time acaba puxando para lados diferentes. O resultado técnico costuma ser trabalho duplicado ou componentes que não se integram corretamente.
Empatia como um Processo de Debug
Quando a velocidade do time cai ou um engenheiro passa a entregar código com bugs com mais frequência, o primeiro impulso é procurar causas técnicas. Mas quase sempre existe um problema humano por trás.
Encarar essas situações como um processo de debug pode ajudar a encontrar a causa raiz. Esse processo de debug também se estende a entender e implementar boas práticas de qualidade de código, já que uma qualidade ruim muitas vezes nasce de falhas de comunicação ou empatia.
É preciso olhar além dos erros superficiais.
Por exemplo, um engenheiro normalmente confiável que começa a entregar código com atraso e de baixa qualidade pode estar sofrendo de burnout, não de uma queda de capacidade técnica. Um desenvolvedor júnior com dificuldade para concluir tarefas pode precisar de mentoria mais explícita, não apenas de mais um link para a documentação. Empatia, nesse contexto, significa entender necessidades de stakeholders que não foram capturadas no ticket do JIRA ou perceber que um requisito vago está gerando frustração e desgaste para o time inteiro. Quando você consegue diagnosticar esses problemas de base, você consegue resolver conflitos interpessoais antes que eles escalem e afetem uma sprint.
Desenvolvendo Habilidades para se tornar um Tech Lead
Desenvolver essas competências exige a mesma prática intencional que aprender uma nova linguagem de programação ou um padrão de design de sistemas. O objetivo é construir um conjunto de ferramentas para lidar com os aspectos humanos do desenvolvimento de software com o mesmo rigor aplicado aos aspectos técnicos.
Comunicação Intencional
Boa comunicação vai além de simplesmente falar. Trata-se de garantir que o entendimento seja realmente transferido entre as pessoas. Isso exige cuidado na forma de ouvir, falar e escrever.
Escuta ativa
Em uma discussão técnica, é importante ouvir tanto o que está sendo dito quanto o que não está.
Um desenvolvedor está hesitante em relação a uma abordagem por causa de um risco técnico que ainda não conseguiu articular bem?
O product manager está pressionando por um prazo por causa de uma demanda externa que você não conhece?
Preste atenção aos sinais implícitos.
Estruturação de feedback
Dar feedback construtivo é uma das partes mais difíceis do trabalho. Ele precisa ser específico, acionável e focado no trabalho, não na pessoa. Em vez de dizer “esse código está confuso”, tente explicar melhor “tive dificuldade de acompanhar a lógica dessa função. A gente poderia adicionar alguns comentários ou quebrá-la em partes menores para deixar a intenção mais clara?”.
Isso muda o foco do julgamento para um esforço colaborativo de melhoria do código.
Escolher o meio certo
O canal usado para comunicar faz diferença. Uma decisão arquitetural complexa não deveria ser tomada em uma thread fragmentada no Slack. Isso pede um design doc e talvez uma reunião para discutir trade-offs. Por outro lado, um esclarecimento rápido não precisa de uma reunião de 30 minutos. Aprender quando usar comunicação assíncrona versus tempo real, ou escrita versus verbal, evita mal-entendidos e respeita o tempo de todos. Essa abordagem estratégica de comunicação também tem um papel importante em otimizar o tempo de ciclo de PR e na entrega geral do projeto.
Desenvolvendo Empatia
Empatia, no contexto de engenharia, é sobre entender as perspectivas dos outros para construir um time mais resiliente e eficaz. Ela é a base da segurança psicológica, onde as pessoas se sentem seguras para fazer perguntas, admitir erros e questionar ideias sem medo de culpa.
Assumir diferentes perspectivas
Um engenheiro sênior, um engenheiro júnior e um product manager enxergam o mesmo projeto por lentes diferentes. O sênior pode estar focado na manutenibilidade de longo prazo, o júnior em aprender a base de código, e o PM em cumprir um prazo. Seu papel é entender essas diferentes visões e encontrar uma solução que equilibre todas elas.
Construir segurança psicológica
Crie um ambiente onde errar é aceitável. Quando alguém aponta um problema em um design que você propôs, agradeça. Quando ocorre um incidente em produção, foque o post-mortem em “o que podemos aprender?” em vez de “quem foi o culpado?”. Isso incentiva o diálogo aberto e faz com que os problemas apareçam cedo, quando ainda são pequenos e fáceis de resolver.
Navegar divergências
Debates técnicos são saudáveis, mas podem se tornar improdutivos se ficarem pessoais. Ao mediar uma discordância, seu papel é trazer o foco de volta para o objetivo comum. Reconheça os dois pontos de vista e conduza a conversa em direção a um terreno comum. Enquadre a decisão em termos de trade-offs técnicos e do que é melhor para o projeto, não de quem “vence” a discussão.
Liderar por Influência, Não por Autoridade
Seu cargo pode até te dar autoridade, mas a sua efetividade como líder vem da capacidade de influenciar o time e orientar o trabalho para um bom resultado. Isso fica ainda mais claro no papel de tech lead, que muitas vezes lidera pessoas no mesmo nível hierárquico, sem poder formal de gestão. Nesses casos, a liderança se sustenta em confiança, clareza e coerência nas decisões do dia a dia.
Mentoria e delegação
Escalar seu impacto passa por capacitar o time. Delegar não é só repassar tarefas menores, é entregar responsabilidades reais, mesmo quando você sabe que faria mais rápido sozinho.
Uma boa delegação vem acompanhada de mentoria. Dê a um engenheiro mais júnior uma tarefa desafiadora, mas bem definida. Explique o contexto, alinhe expectativas, acompanhe os pontos críticos e deixe claro que ele é responsável pelo resultado. O objetivo não é controlar cada passo, mas criar espaço para aprendizado e autonomia. Com o tempo, isso reduz dependências e libera você para focar em problemas de nível mais alto.
Resolução de conflitos
Conflitos vão acontecer, especialmente em times técnicos com opiniões fortes. Quando surgirem, trate-os de forma direta e em particular. Evite expor pessoas em público ou deixar tensões se acumularem.
Ouça todos os lados com atenção para entender o problema real. Muitas vezes não é algo técnico, mas um desalinhamento de expectativas, prioridades ou comunicação. Seu papel é ajudar o time a destravar a situação e seguir em frente, não decidir quem “ganha” a discussão.
Construção de consenso
Sempre que possível, evite impor decisões técnicas. Em vez disso, conduza o time em direção a um consenso. Apresente o problema com clareza, traga as opções viáveis, explicite os trade-offs e facilite a discussão.
Quando o time participa da decisão, o comprometimento com a execução aumenta bastante. A implementação flui melhor e os debates futuros tendem a ser mais objetivos. Esse processo pode parecer mais lento no começo, mas no médio e longo prazo leva a decisões mais consistentes e a um time mais engajado.