A decisão de refatorar ou reescrever uma base de código grande geralmente começa com uma sensação de atrito. Pequenas mudanças que deveriam levar um dia de repente passam a levar uma semana. Cada nova feature parece quebrar uma antiga, e o backlog de bugs do time cresce mais rápido do que diminui.
Isso acontece porque sistemas não apenas envelhecem, eles acumulam história. Cada pedido de feature, correção urgente e mudança de direção adiciona mais uma camada de código. Com o tempo, o que antes era uma arquitetura limpa se transforma em uma teia de dependências e gambiarras. A pressão para entregar novas features significa que raramente há tempo para voltar e limpar tudo, então a dívida técnica se acumula. Quando você chega a esse ponto, o sistema passa a resistir ativamente à mudança, e cada pull request vira uma negociação dolorosa com o passado.
Sinais de que o sistema está no limite
É fácil reclamar de uma base de código, mas há sinais claros de que o sistema está perto de quebrar. O mais óbvio é a queda constante na velocidade de desenvolvimento. Você pode medir isso com cycle time ou, de um jeito mais simples, comparando quanto tempo leva para entregar uma feature básica hoje em relação a um ano atrás.
Outro sinal claro é o aumento de regressões em partes específicas do sistema. Quando corrigir um bug quase sempre cria outro, isso costuma indicar uma arquitetura acoplada demais, onde mudanças pequenas têm efeitos colaterais difíceis de prever.
Também existem custos humanos. Quando engenheiros passam mais tempo lidando com limitações do sistema do que construindo com ele, a motivação cai rápido. Fica difícil fazer onboarding de novas pessoas porque a carga cognitiva para entender o sistema é enorme. E quando seus engenheiros mais experientes começam a pedir para trabalhar em qualquer outra coisa, ou você passa a ter dificuldade para contratar porque ninguém quer tocar no stack “legado”, isso costuma indicar que o sistema chegou a um ponto crítico.
Complexidade acidental vs. complexidade essencial
Antes de tomar uma boa decisão, você precisa entender que tipo de complexidade está realmente enfrentando. A complexidade de software geralmente cai em dois grupos: essencial e acidental.
Complexidade essencial é inerente ao problema de negócio que você está resolvendo. Se você está construindo um sistema de processamento de pagamentos, precisa lidar com regulamentações, detecção de fraude e múltiplos gateways de pagamento. Não importa quão limpo seja o código, essa complexidade não desaparece. O máximo que você consegue é mantê-la sob controle.
Complexidade acidental, por outro lado, vem das escolhas que fizemos ao longo do caminho. É o resultado de bibliotecas desatualizadas, abstrações mal desenhadas, padrões inconsistentes ou correções rápidas que nunca foram revisitadas. Essa é a complexidade que torna o código difícil de ler, testar e modificar, mesmo quando a lógica de negócio é simples.
Por que essa distinção é tudo
Essa distinção é o fator mais importante no debate entre refatorar ou reescrever.
Refatoração é uma ferramenta excelente para atacar complexidade acidental. Ela ajuda a melhorar abstrações, simplificar partes do sistema que já não fazem mais sentido e deixar o código mais consistente, tornando o dia a dia mais fácil. Se o seu problema é majoritariamente complexidade acidental, uma série de refatorações direcionadas quase sempre é a resposta certa.
Uma reescrita completa, porém, costuma ser proposta como solução para toda complexidade. O problema é que uma reescrita não remove complexidade essencial.
Se o time não entende profundamente o domínio do negócio e seus desafios inerentes, ele simplesmente vai recriar a mesma complexidade essencial em uma nova linguagem ou framework, só que agora sem anos de correções de bugs e tratamento de edge cases acumulados.
É por isso que tantas reescritas falham. Elas confundem complexidade essencial com problemas acidentais e acabam produzindo um sistema novo, com os mesmos problemas de antes e vários outros adicionais.
Quais são os custos de refatorar ou reescrever?
Tanto refatorar quanto reescrever têm custos que vão muito além de horas de engenharia, e eles costumam ser subestimados.
O preço da refatoração
O custo mais significativo da refatoração é o custo de oportunidade. Cada hora que seu time gasta em melhorias internas é uma hora que não está sendo gasta em novas features voltadas ao cliente. Isso pode ser uma venda difícil para líderes de produto e de negócio que não veem valor imediato. Além disso, um grande esforço de refatoração às vezes falha em entregar os benefícios prometidos se não atacar os problemas arquiteturais.
Você pode passar meses limpando módulos apenas para perceber que o verdadeiro problema está na forma como o banco de dados é estruturado ou como os serviços se comunicam.

O problema com uma reescrita completa
Uma reescrita completa é um dos projetos mais arriscados que um time de software pode assumir. Os cronogramas quase sempre são absurdamente otimistas. Enquanto o novo sistema está sendo construído, o antigo ainda precisa ser mantido, o que significa rodar dois sistemas em paralelo e dividir o foco do time. Todas as regras não escritas e o conhecimento implícito sobre por que o sistema antigo funciona do jeito que funciona se perdem, levando a uma nova onda de bugs e regressões.
Isso muitas vezes leva ao chamado “efeito do segundo sistema”. Livres das restrições do sistema antigo, arquitetos tentam construir uma solução perfeita, superengenheirada, que resolve todos os problemas que já imaginaram. O escopo cresce sem controle, o projeto se arrasta por anos e, quando finalmente fica pronto, as necessidades do negócio já mudou de novo.
Quando refatorar ou reescrever?
Em vez de confiar no instinto, você precisa de uma forma estruturada de avaliar as opções. A decisão deve ser baseada em uma análise clara dos trade-offs.
Critérios para avaliar suas opções
Aqui estão algumas áreas-chave para avaliar com o time:
Viabilidade técnica
Sendo realista, dá para manter o sistema atual pelos próximos dois ou três anos? Ou existem decisões arquiteturais, como um monólito que trava os times, que refatorar não vai consertar?
Risco para a continuidade do negócio
O que pode dar errado em cada opção? Refatorar demais pode gerar instabilidade em produção. Reescrever tudo cria outro tipo de risco, com muitas incógnitas e uma migração longa e delicada.
Capacidade e conhecimento do time
O time tem as habilidades para executar uma reescrita em uma nova tecnologia? Tão importante quanto isso: existe conhecimento suficiente sobre as particularidades do sistema antigo para evitar repetir erros?
Custo total de propriedade
Olhe além do custo inicial do projeto. Considere o custo de manutenção no longo prazo, o custo de rodar sistemas em paralelo durante uma reescrita e o impacto em contratação e retenção.
Uma heurística simples
Se você precisa de uma forma mais simples de enxergar a decisão, compare o custo estimado de refatorar incrementalmente o sistema existente até um estado que atenda aos requisitos futuros com o custo total de começar do zero.
Seja honesto e abrangente nas estimativas, incluindo uma manutenção paralela, migração e a sobrecarga operacional de um novo sistema.
Se o custo de uma reescrita estiver sequer próximo do custo de refatorar, o caminho incremental quase sempre é a escolha mais segura e melhor, porque permite entregar valor de forma mais contínua e gerenciar riscos ao longo do caminho.
Como executar
Depois que a decisão está tomada, tudo passa a depender da execução. Ambos os caminhos funcionam, desde que haja disciplina, ownership claro e conexão direta com os objetivos do negócio.
Refatoração incremental com Strangler Fig
Se a decisão for seguir com o sistema existente, a melhoria precisa ser contínua, não um projeto grande e pontual. Reserve espaço em cada sprint para reduzir dívida técnica e melhorar o que já está em produção.
Quando entram mudanças arquiteturais maiores, o padrão da Strangler Fig costuma funcionar bem. A ideia é simples: escolha uma funcionalidade específica, implemente-a como um serviço separado e passe a direcionar o tráfego para esse novo componente por meio de um proxy ou camada de roteamento. Aos poucos, partes do monolito antigo deixam de ser usadas e podem ser removidas.
Com o tempo, o sistema legado vai sendo substituído de forma controlada, sem uma migração brusca. Isso permite modernizar aos poucos, continuar entregando valor e reduzir bastante o risco de quebrar algo crítico no caminho.
Reescritas em fases com um escopo mínimo viável
Se uma reescrita for realmente inevitável, o segredo é limitar agressivamente o escopo. Defina um Minimum Viable Rewrite (MVR) que foque em um pequeno recorte vertical bem compreendido do sistema.
O objetivo é colocar uma parte do novo sistema em produção o mais rápido possível, mesmo que ele rode ao lado do antigo. Use feature flags e canary releases para liberar o novo sistema aos poucos para os usuários, dando tempo para encontrar e corrigir problemas antes de um corte completo. Essa abordagem faseada transforma um projeto enorme e de alto risco em uma série de passos menores e gerenciáveis.
Governança e alinhamento no longo prazo
Nenhum esforço de modernização terá sucesso sem governança clara. Isso pode significar estabelecer um Architecture Review Board para orientar decisões técnicas ou implementar ferramentas automatizadas para monitorar qualidade de código e dívida técnica.
Mais importante ainda, qualquer iniciativa de refatoração ou reescrita precisa estar ligada a objetivos claros de produto e de negócio. Se não for possível conectar o trabalho técnico a melhorias reais, como mais velocidade de entrega, mais estabilidade ou uma melhor experiência para o usuário, o apoio tende a se perder ao longo do caminho.